Márcio Sônego é Ph.D em Meteorologia Agrícola pela Lincoln University, Nova Zelândia; M.Sc. em Meteorologia Agrícola pela Universidade Federal de Viçosa (MG);. B.Sc. em Agronomia, pela Universidade Federal de Santa Catarina. Pesquisador em Meteorologia Agrícola na EPAGRI, desde agosto de 1987e professor da Unesc (Criciúma.SC) desde 2002. Palestrante em eventos sobre meio ambiente, em universidades, enfocando o tema "Mudanças Climáticas". Atualmente se dedica à pesquisa com Agrometeorologia e com Fruticultura Tropical (banana).
Márcio respondeu as seguintes perguntas por e-mail:
1. O clima da Terra está mesmo louco? O aquecimento global é uma
preocupação ou o planeta está num ciclo natural?
É comum ouvir das pessoas que o clima está louco. Isto é mais válido
ainda para quem mora em região subtropical, como o sul do Brasil,
onde costumam passar de uma a duas frentes frias por semana. Então
você tem um dia muito quente, com temperatura máxima alcançando os
35°C, e de repente entra um vento sul trazendo chuva e trovoada,
seguido de forte queda na temperatura, que de 35°C pode cair para
25°C em questão de minutos. Aí as pessoas dizem que nunca viram coisa
como esta em toda a sua vida. Curta vida comparado com a idade do
planeta Terra estimado em 4,7 bilhões de anos. Coloque isto por
extenso e fica 4.700.000.000, contra 100 anos de idade das pessoas
mais idosas do planeta. Temos pouco tempo de vida para experimentar
os ciclos climáticos que são vários, a começar pela relação Terra-Sol.
- A cada 11 anos o Sol completa um ciclo, conhecido como ciclo das
manchas solares, descoberto por Galilleu. Quanto maior o número de
manchas, maior radiação o Sol emite. O ano 2000 foi de Sol ativo
(mais intenso), e 2007/8 de Sol calmo (menos intenso).
- O Sol apresenta ciclos maiores como o de 11.000 anos, 42.000 anos e
100.000 anos porpostos pelo matemático sérvio Milankovich. Esta foi
uma das formas que a ciência encontrou para explicar os intervalos
entre as eras glaciais.
- Mas mais curto e interessante é o ciclo de aquecimento e
resfriamento das águas do Oceano Pacífico que acontece em intervalos
de 20 anos, aproximadamente, conhecido como "Oscilação Decadal do
Pacífico" (PDO). Agora estamos no ciclo de Oceano Pacífico mais frio
e vai até o ano 2019, o que pode causar mais eventos de La Niña e com
isto a temperatura média global ficar mais amena, menor do que os
habituais 15°C (média global). Isto já aconteceu em 2008, ano
considerado mais frio da década.
- Em plena Idade Moderna, por volta de 1600 a 1800, a Europa sofreu
com uma diminuição de temperatura que causou frio intenso, neve
bloqueando passagens dos Alpes, lagos ao nível do mar congelados. O
rio Tâmisa congelou em Londres, tanto é que tem uma famosa tela
retratando uma feira de inverno sobre este rio congelado, coisa
incomum.
- Já por volta do ano 1100, o líder viking Erik "o vermelho", migrou
com sua família e serviçais da Escandinávia para a Groenlândia onde
fixou residência, já que a gigantesca ilha oferecia terra e clima
para cultivo de cereais como trigo e aveia. Hoje em dia isto não é
mais possível, já que a Groenlândioa é coberta de gelo. A este
período chamou-se de "pequeno ótimo climático", já que a temperatura
média mundial era maior do que hoje em dia.
- O verdadeiro "ótimo climático" aconteceu por volta de 5.000 anos
atrás com a temperatura média mundial 2°C acima da atual. Existem
provas de que nesssa época se cultivava uvas para vinho, mesmo em
regiões bem ao norte da Europa, onde hoje o frio intenso impede o
cultivo de uvas.
Todos esses relatos mostram um pouco da oscilação natural do clima
terrestre, e que nem sempre tem a devida explicação científica.
Quanto ao "aquecimento global" causado pelas atividades humanas,
existe uma coincidência entre o aumento da concentração de gases de
efeito estufa (GEE) na atmosfera, com o aumento da temperatura média
mundial. Por essa razão é que a ciência alerta para o aumento da
temperatura média mundial em função do aumento da concentração dos
principais gases estufa que são: o gás carbônico (CO2), metano (CH4),
óxido nitroso (N2O).
Mas veja um outro detalhe pouco comentado, mas muito batido pelo Dr.
Molion. Há de se destacar que o vapor d'água (H2O) também é gás
efeito estufa, sendo o principal de todos por sua maior abundância na
composição do ar. Se os oceanos esquentarem devido aos ciclos
naturais, haverá maior evaporação, maior concentração de vapor d'água
na atmosfera, e maior aquecimento global já que o vapor d'água é gás
efeito estufa.
Para complicar ainda mais, dois físicos russos que se dedicam ao
estudo do Sol, afirmam que até o ano 2012 o Sol estará com atividade
mínima, o que causará um resfriamento global e que poderá ser
semelhante ao ocorrido na Idade Moderna.
2. Por que o Protocolo de Kioto não deu certo?
Porque Austrália e EUA não o assinaram por questões econômicas. A
Austrália é grande fornecedora de carvão mineral para os países
asiáticos. O primeiro-ministro australiano afirmou que não queria
causar desemprego em seu país com o fechamento da mineração de
carvão. Da mesma forma pensou George Bush, já que o carvão mineral é
uma das principais fontes de energia dos EUA.
Paralelo a isso tudo, aumentou assustadoramente a corrida pelo
petróleo na Groenlândia. Havia pouco mais de 5.000 esquimós habitando
a Groenlândia, até que pouco menos de cinco anos começou a exploração
de petróleo por lá aumentando a população para mais de 50.000
habitantes. Veja o paradoxo: os combustíveis derivados do petróleo
vão liberar gases efeito estufa, o que aumentaria a temperatura
mundial, o que iria descongelar ainda mais a Groenlândia, pondo em
risco toda o sistema climático mundial.
O ganhar "dinheiro" fica acima da maioria das questões lógicas.
3. O desmatamento e a poluição estão mesmo influenciando no clima?
Com certeza. Veja o caso do clima X vegetação. Você mesmo pode notar
quando caminha por Criciúma no início de uma noite quente de verão.
Ao caminhar pelo centro você sente o "bafo" que vem do chão. Ao
caminhar por um gramado ou área arborizada você vai sentir um ar mais
fresco. Então o desmatamento muda o clima local, e quanto maior o
desmatamento maior é a área de clima alterado. Com o desmatamento
aumenta também o risco das enchentes, já que sob chuva intensa
(enxurrada) toda essa água não tem mais como infiltrar no solo
impermeabilizado da cidade, resultando nas enchentes relâmpagos que
Criciúma tem experimentado.
Quanto a poluição ela pode sim alterar de certa forma o clima. Um
caso típico é a chuva. Para formar uma gota de chuva é preciso que as
partículas d'água se juntem em torno de um núcleo higroscópico. Com a
poluição aumenta a concentração de núcleos higroscópicos e aumenta a
possibilidade de precipitação, nem que seja uma garoa.
4. A idéia da neutralização de carbono é uma bobagem, uma utopia ou
uma possibilidade?
Penso ser uma possibilidade, desde que dê lucro a alguém. Antes
disso, existe a fixação ou o sequestro do gás carbônico pelas
florestas tornando o plantio de árvores uma ferramenta para minimizar
a concentração de CO2. Está em experimentação a distribuição de ferro
nos oceanos para aumentar a densidade de algas, que farão o sequestro
do gás carbônico. Vamos esperar pelos resultados.
5. Uma reportagem no site da Embrapa afirma que as culturas migrarão
em breve. Ou seja, a soja, o café e o milho terão que serem plantados
em outros locais. É verdade? Em quanto tempo isso vai ocorrer?
A Embrapa e a Epagri tem equipes trabalhando nas perspectivas da
agricultura brasileira frente ao aquecimento global e seus efeitos no
Brasil. Com certeza as culturas deverão migrar caso aconteça o
aquecimento previsto pelos modelos do IPCC. A maçã, por exemplo,
exige uma boa quantidade de frio no período de inverno. Algumas
cultivares exigem mais de 600 horas de frio abaixo de 7,2°C. Se o
clima esquentar em média 2°C, a região de São Joaquim terá
dificuldade em cultivar variedades de maçã de alta exigência em frio.
Pesquisadores da Embrapa e Epagri que trabalham em melhoramento
genético estão sempre em busca de criar novas cultivares de plantas
adaptadas aos diferentes tipos de clima. Aqui mesmo em Urussanga, na
Estação Experimental da Epagri, existe uma pesquisa que vem sendo
conduzida desde 1986 na busca de cultivares de pêssego e ameixa que
exigem menos frio. Estas cultivares poderão ser levadas a São
Joaquim, caso o clima de lá esquentar um pouco mais, e caso o clima
de Urussanga esquentar tanto que não possa ser mais viável o cultivo
de pêssego e ameixa na região.
6. Tu fizeste teu PhD na Oceania. As Ilhas Maldivas vão mesmo sumir do mapa?
E no caso da Europa, mais especificamente a Holanda? Os diques vão aguentar?
Já no ano 2000 moradores de Tuvalu procuravam migrar para países como
Austrália e Nova Zelândia, pois Tuvalu estava sendo pouco a pouco
invadido pelas águas do Oceano Pacífico. Entretanto, há relatos
científicos de que muita terra que hoje é habitada pertencia aos
mares e oceanos. Será que o mar não está simplesmente retomando seu
lugar cumprindo ciclos como os climáticos.
Quanto aos diques da Holanda, acho difícil que aguentem a energia das
mares e as ressacas.
7. Os maiores computadores do mundo são os da previsão do clima. Por
que esta ciência é tão difícil de prognosticar?
A meteorologia instrumental é algo novo e em constante avanço. Só a
partir de 1860 é que países europeus começaram a coletar dados
meteorológicos de maneira padronizada. Em 1920 os irmãos Bjerknes,
da Noruega, surgiram com a teoria das frentes frias. Depois surgiram
o radar e o satélite meteorológico, melhorando pouco a pouco as
previsões de tempo. Há 30 anos atrás o famoso Seixas Neto fazia a
previsão do tempo para Santa Catarina, publicada no jornal O Estado.
Era algo muito empírico, baseando-se na aproximação das frentes frias
que causariam mudança de vento, chuva e frio. Na possibilidade das
chuvas nas tardes de verão. Era algo parecido com o que se fala hoje:
se chove em Porto Alegre, no dia seguinte chove em Criciúma. Na
década de 1980 já havia os modelos de previsão numérica feitas pelo
computador, que melhoraram em muito os acertos. Atualmente a previsão
do tempo é feita com base nos dados das estações de superfície,
imagens de satélite, radar meteorológico e modelagem matemática.
Entretanto, ainda existem áreas do globo terrestre com poucas
informações de clima, em especial os oceanos, florestas e desertos.
Os oceanos compõem 2/3 da superfície do globo terrestre e não existem
estações suficientes para estudar em detalhe o clima sobre os
oceanos. O fenômeno El Niño, por exemplo, começou a ser estudado a
partir da década de 60, pouco mais de 40 anos atrás. O El Niño
influencia o clima em todo o mundo. Para o sul do Brasil, El Niño é
sinal de mais chuva e calor no inverno. Então, a previsão do tempo
está se aprimorando ano após ano.
8. Qual o custo e estrutura para uma estação metereológica em Criciúma?
O que propusemos a Famcri foi um sistema de monitoramento do clima de
Criciúma, composto por uma estação automática e quatro medidores de
chuva espalhados nos arredores do município. Para o primeiro ano,
investimento e custeio, custará em torno de R$ 75.000,00. Para os
anos seguintes, só custei, em torno de R$ 30.000,00 /ano.